Boi, Sinhazinha, Parintins, Pajé, Garantido, Caprichoso, Lindolfo Monteverde

 
 
 
 
Boi, Sinhazinha, Parintins, Pajé, Garantido, Caprichoso, Lindolfo Monteverde

Conta-se que o Bumbá Garantido, isto é, a metade “vermelha” do município de Parintins, teve Lindolfo Monteverde como fundador do “Boi” Garantido.

Ainda garoto, gostava de ouvir as histórias que seu avô contava. A que mais lhe encantava, era a de um “Boi” alegre, brincalhão e animado. No conto, este animal dançava, enchendo de energia os lugares por onde passava, sendo muito querido por todos; até que um dia, um empregado da fazenda, Pai Francisco, matava o bicho para satisfazer o desejo de sua esposa, que grávida, queria comer língua de boi. Esse personagem e sua esposa, Mãe Catirina, passavam a ser perseguidos por todos na cidade. Na tentativa de salvar o “Boi”, apareciam o médico, o padre, o Amo da fazenda e sua filha – a Sinhazinha. Depois de muita reza e de fazerem todo o possível, finalmente, conseguiam ressuscitar o animal. A felicidade era enorme, começava uma grande festa e, Pai Francisco, que até então era o vilão da história, acabava sendo perdoado.

A história permaneceu na imaginação de Lindolfo Monteverde, de tal forma, que ele viria a criar uma armação, cobrindo-a com um pano e saindo às ruas, brincando com o seu “Boi Bumbá”. Isso teria acontecido, há muitos anos, na cidade de Parintins.

Dizem que a brincadeira começava sempre com uma ladainha (uma prece), seguida de uma grande festa, com muita comida e muita música.

Houve uma época em que Lindolfo Monteverde estivera no exército. Naquela ocasião, o rapaz adoecera gravemente. A fim de recuperar a saúde, fizera uma promessa a São João Batista. Prometera que, se voltasse a ficar bom, seu “Boi” jamais deixaria de sair às ruas, pelo tempo que ele vivesse.

Para alegria de todos aqueles que tem a sorte de visitar a cidade de Parintins durante a época do Festival, São João Batista atendera seu pedido! Lindolfo Monteverde se recuperara e todos os anos, até os dias de hoje, os torcedores do “Boi” se reúnem para rezar e festejar.

Conta-se também, que Lindolfo Monteverde era um ótimo repentista, isto é, ele incomodava os torcedores do “Boi” contrário com os desafios que criava em suas toadas (música típica do Festival). Tinha um vozeirão, que poderia ser ouvido de longe.

O Boi Garantido foi criado branco com o coração vermelho. O nome, Garantido, tem algumas versões para justificá-lo. Uma delas deriva das primeiras brigas entre os “brincantes” (torcedores) de ambos os “Bois”. O chifre do “Boi contrário” cai e Lindolfo, como bom repentista que era, entoa as palavras: “nosso Boi sempre sai inteiro. Isso é Garantido!”. A outra versão parte de outro repentista, que desafia: “Este ano, se cuide, que eu vou caprichar no meu “Boi”. Lindolfo então retruca: “Pois capriche no seu, que eu “garanto” o meu!”

Outras versões existem, várias histórias envolvidas com os “Bois”, merecem ser ouvidas. Nem que sejam contadas pelos próprios moradores da cidade.

Por outro lado, lá no lado azul do município, o Bumbá Caprichoso, nascido em outubro de 1913, criado pelos irmãos Cid, que mudaram para Parintins com a esperança de começarem uma vida nova. Foram em busca de trabalho, de constituírem famílias.

Na ocasião, fizeram também as suas promessas a São João Batista. E, tiveram seus desejos realizados. A promessa que tinham feito, foi cumprida: ofereceram um “Boi”, feito de pano, a São João Batista.

Jose Furtado Belém, advogado que teria feito carreira política em Parintins, tinha tido a oportunidade de conhecer a dança do “Boi” quando estivera em visita a Manaus. Ao encontrar-se com os três irmãos da família Cid e saber sobre “Boi”, gostara da idéia e, juntos criariam o “Boi” Galante. Inicialmente teria sido um “Boi” simples, feito de caixa de papelão e, sairia às ruas pela 1ª vez, em junho de 1922.

Em 1925, um grupo de pessoas estivera reunida, a família Cid entre eles. Tinham como objetivo, fundar um “Boi Bumbá”. Um dos presentes, o Coronel João Meireles, teria sugerido colocar o nome de Caprichoso – “Boi” que teria visto em Manaus, do qual o coronel seria fã. Todos concordam e acertam ainda, que Felix Cid, que era repentista e dotado de uma voz maravilhosa, seria o amo do “Boi”.

O nome, Caprichoso, teria um significado intrínseco a ele, isto é, pessoas cheias de capricho, trabalho e honestidade. O sufixo “oso”, significando provido ou cheio de. Quando somados, “capricho” mais “oso”, poder-se-ia dizer que é extravagante e primoroso em sua arte.

O “Boi” Caprichoso contava, inicialmente, com uma marujada, como eram chamados os integrantes da batucada, de 20 pessoas. Os símbolos da Marujada eram: a Estrela Maior, o Amo e A Vaquejada. Surge então, o símbolo do Caprichoso: a estrela azul.


 

o festival de Parintins

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Diversas versões contam a história do Festival de Parintins, da rivalidade entre os “Bois”, qual deles teria surgido primeiro...

Um relato de Raimundinho Dutra, compositor, diz ter escutado de seus próprios pais, que foi seu avô, o maranhense Marçal Mendes de Assunção, quem trouxera as primeiras danças para Parintins. Isso, em 1988.

Outra história, seria a da folclorista Odinéia Andrade, que coincidentemente, ou não, confirma a criação, em 1913, nascidas das promessas dos irmãos Cid.

Simão Assayag, compositor, engenheiro, folclorista, pintor, escultor; diz que os dois primeiros “Bois” teriam sido Garantido – criado por Lindolfo Monteverde – e, Galante – criado por Emídio Vieira. Depois de uma briga, Emídio teria saído do Galante e os irmãos Cid teriam assumido o “Boi”, trocando o nome para Caprichoso.

As várias versões, desencontradas; algumas delas carregadas de emoção e de paixão, referem-se ao aspecto amplo da cultura humana; dos diferentes modos de ver, compreender, assimilar, viver e conviver a história do dia-a-dia.

Resultado da união entre o trabalho de catequização da igreja, dos rituais tribais, dos contos, da mitologia, da ciência, da realidade, da ficção, dos anseios políticos, das denúncias de agressão ao meio ambiente; o Festival Folclórico de Parintins vem refletir os valores artístico-culturais, as experiências e a vida que existe neste pedacinho do Brasil, hoje em dia conhecido internacionalmente.

Desde o início da década de 80 os “Bois” eram administrados por uma diretoria, antes disso eram administrados por seus respectivos donos. Em 1966 passaram a seguir um regulamento, que impõe um julgamento para embasar e satisfazer a decisão, na escolha de um campeão. A partir de 2005 a Prefeitura é quem administra os “Bois”.

Para saber mais sobre a história de Parintins, recomendamos fortemente a leitura de “Parintins Memória dos Acontecimentos Históricos”, escrito por Tonzinho Saunier, que conta com um excelente trabalho de pesquisa.

      Texto: Sheila Cirigola