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Parintins, uma cidade pacata na ilha Tupinambarana, no meio da selva amazônica, é habitada por um povo talentoso. O festival folclórico apresenta a um só tempo: mitos, contos e lendas, através de figuras, carros alegóricos, bonecos gigantes, tudo isso acompanhado das palavras do apresentador, que vai narrando cada detalhe em todas as apresentações. O som contagiante, um batuque sob o comando de maestros; o acompanhamento, animação e coreografia da “galera” completam o quadro. Nele desfilam figuras extraídas do conto do “Boi” Bumbá. O personagem principal é o “Boi”, representado por uma armação coberta de pano – branco, com o coração vermelho, no caso do “Boi” Garantido e, preto com a estrela azul, no caso do “Boi” Caprichoso -, com um homem – que recebe o nome de tripa - nome carinhoso dado à pessoa que tem a honra de vestir a fantasia do “Boi”, dançando em seu interior. Os vaqueiros, personagens do conto original, Pai Francisco, Mãe Catirina, o Amo do “Boi” e a Sinhazinha. Juntos, eles conduzem o “Boi”, que é ferido e depois ressuscitado. E, como Parintins já era habitada pelos índios maués, sapupés e parintintins (daí o nome da cidade) antes mesmo do conto e dos contadores de contos chegarem à ilha, novos personagens foram introduzidos à trama. O Pajé, que aparece em meio a algum ritual indígena, cuja história vai sendo contada pelo apresentador; a Cunhã-Poranga, que representa a beleza feminina, encantando os guerreiros da tribo; os Tuxauas, que representam a divindade e a sabedoria indígena. Desfilam no “Bumbódromo” de Parintins, figuras lendárias, mitológicas, religiosas, além de personagens vindos da mitologia indígena: Iara, Curupira, Gigante Juma, São João, Cobra Grande, Formiga do Fogo, boto-cor-de-rosa etc. A música adquire um tom peculiarmente indígena devido ao som das palminhas, dos maracás de lata, dos tambores. O ritmo, enriquecido pelo desfile da tribo indígena, da presença dos tuxáuas, tem a batida de uma dança indígena. As rixas, sempre presentes através das toadas de desafio, pontuam e levam a “galera” ao delírio. Em Parintins o Bumba-meu-Boi expressa o agradecimento a São João pela graça recebida e como junho é o mês do Santo, este é o mês do festival. Como parte do ciclo de festas juninas, quando também são celebradas as festas a Santo Antonio e São Pedro. [Para mais informações recomendamos a leitura de: Folclore brasileiro, Nilza B. Megale, Editora Vozes; A ciência do folclore, Rossini Tavares de Lima, Editora Martins Fontes; Dicionário do folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo, Editora Global.] Próprio das festas nordestinas, o festival de Parintins apresenta-se com uma grande massa de figurantes, em torno de 3 mil “brincantes”, como são chamadas as pessoas que se apresentam durante o festival. O xamanismo é uma cerimônia mística em que o xamã – feiticeiro com poderes sobrenaturais de cura, capaz de se comunicar com os espíritos e de fazer previsões, utilizando técnicas que o levam ao êxtase e neste momento ele entra num estado de transe e abandona o corpo. Item obrigatório (como a ala das baianas no carnaval), obriga os organizadores dos “Bois” a pesquisarem antes de iniciar os preparativos para o festival, pois o ritual deve ser baseado em trabalho de pesquisa e não pode perder o contexto folclórico. O Pajé e os Tuxauas algumas vezes são responsáveis pelo final feliz, ressuscitando o “Boi”. A “pajelança”, uma cerimônia xamãnística realizada para promover a cura, invoca a alma do bicho, que varia a cada ano (a cobra grande, por exemplo) e nele encarna para saber como dar a vida de volta ao “Boi”. Há a purificação local, cânticos e danças até que ele recebe a receita da cura. O Festival folclórico de Parintins sofre as mudanças naturais, ocorridas ao longo dos anos, como o contato com a cultura indígena. Até o século XVIII as elites consideravam as manifestações populares, resultado da ignorância e do desconhecimento das artes e das ciências. [N.E.: ainda hoje vemos pessoas que pensam desta forma] Já no século XIX, estudiosos identificaram o encanto e espontaneidade destas manifestações, contrastando-se com o formalismo acadêmico. No entanto, um olhar atento pode acessar inúmeras informações, desde as mais antigas crenças religiosas até os sonhos e os temores próprios dos seres humanos, passando ainda pelos desejos políticos da população, sem esquecer também os fatos históricos. a influência indígena dos Sataré-Mawé
Não se pode falar no Festival de Parintins sem ao menos mencionar que o Festival de Parintins conta com forte influência e presença da figura indígena. Não somente as alegorias, os tuxauas, os rituais, as presenças do pajé e da cunhã-poranga, mas também o artesanato. Os que habitam a TI - Terra Indígena: Andirá-Marau, próximo a: Parintins, Maués, Barreirinha, Itaituba e Aveiro, são chamados de Sateré-Mawé. Calcula-se algo em torno de 9 mil índios, se incluirmos as outras tribos da região. Alguns de seus rituais mítico-religiosos são conhecidos por aqueles que já assistiram o Festival Folclórico de Parintins. Quem nunca viu: a onça, a formiga, a lagarta... é porque ainda não esteve presente ao Festival. Precursores do processo de beneficiamento do guaraná. Os homens são bilíngües: além da língua indígena, falam também o português. Mas, a maioria das mulheres fala somente a língua Sateré-Mawé. O ritual que marca a passagem do menino adolescente para se tornar um homem que será forte, caçador e livre de todos os males, acontece durante a “festa da tocandira”. Para quem não conhece, trata-se de uma formiga, cuja ferroada extremamente dolorosa, demora entre 12 e 24 horas para passar. Organizados sob a autoridade do chefe da família, que orienta as atividades econômicas e quando precisa reforçar o contigente de trabalho, é ele que convida parentes e conhecidos. Um chefe pode passar a tuxaua, desde que ganhe prestígio pela generosidade, habilidade nas transações comerciais, entrosamento com os tuxauas mais próximos e com o tuxaua geral. O tuxaua, autoridade máxima da tribo, é quem resolve conflitos, convoca reuniões, marca festas e rituais, orienta as atividades agrícolas, manda construir casas, hospeda visitantes. A demonstração de sua generosidade se dá com o cerimonial do “çapó” – nome dado ao preparo do guaraná ralado na água que se transforma em uma bebida consumida abundantemente. Se você comparecer a um destes cerimoniais, saiba que não pode deixar de ingerir a bebida - seria uma ofensa. Além disso, a bebida vai passando de mão em mão, todos vão sorvendo o líquido e o último gole sempre é do tuxaua. Então, tome cuidado para deixar sempre o suficiente, até que de mão em mão, todos possam beber um pouco, deixando o final para o grande chefe. Texto: Sheila Cirigola |